Este artigo foi actualizado no dia 4 de Março de 2025.
Já aqui falei destas tampas que são autênticas preciosidades. Apesar de ainda podermos encontrar algumas pelas ruas mais antigas da cidade, são cada vez mais raras.
Qual é a história destas tampas?
No último quartel do século XIX, a cidade do Porto atravessava um notável período de desenvolvimento, o que tornou insuficiente a já obsoleta — e em muitos locais inexistente — rede de saneamento para os esgotos domésticos.
A Câmara Municipal do Porto, já envolvida nas obras de expansão e criação de novas centralidades, aproveitou o ímpeto para lançar em 1897 um concurso internacional tendo em vista a modernização da rede. Essa decisão não foi alheia à publicação por Ricardo Jorge, um ano antes, de um estudo sobre o saneamento na cidade.

A firma Hughes and Lancaster, de Londres, acabaria por ser a seleccionada, após correcções de uma primeira proposta rejeitada por preço excessivo e inadequação técnica ante o exigido.
A camara regeita a proposta feita em concurso pela casa Hughes & Lancaster: Primeiro, por não lhe convir a proposta financeira; Segundo, por ser excessivo, nos termos da consulta da commissão technica, o preço das obras a executar; Terceiro, por carecer o projecto de saneamento de alterações e addições, que a mesma commissão reputa indispensaveis. Reconhecendo, porém, que o systema proposto é o unico acceitavel para o saneamento da cidade do Porto, convida a mesma casa Hughes & Lancaster a introduzir no seu projecto, dentro do praso de seis mezes para a apresentação do projecto definitivo, as modificações indicadas pela commissão technica e outras que por ventura venham a ser-lhe aconselhadas, reduzindo ao mesmo tempo o preço do seu orçamento.
Feitas as modificações à proposta em termos aceitaveis, a camara cuidará livremente de obter os meios indispensaveis para a realisação da obra.
-- In Saneamento do Porto. Consulta da commissão de saneamento apresentada à ex.ma Câmara Municipal do Porto.
Após a aceitação e vários contratempos, a cidade passou a contar com um sistema que bombeava as águas residuais através de ar comprimido. A operação em pleno de todo o sistema proposto, apenas foi atingido em 1927, ficando em funcionamento com algumas adaptações até 2001. Desta forma, passou a ser possível vencer declives acentuados, tornando a gravidade desnecessária.
Para tal, foi construída a Estação de Sobreiras, em Lordelo do Ouro, que produzia a pressão através de um sistema misto de compressores eléctricos e a vapor. Os efluentes eram encaminhados até esta central, onde ficavam armazenados para serem expulsos durante a maré vazante.

A Central de Ar Comprimido de Sobreiras, inaugurada em 1904, foi o elemento central da primeira rede de saneamento do Porto. Movida a vapor, produzia ar comprimido que alimentava os ejetores, permitindo elevar e expulsar os esgotos para o mar. Foi desativada em 2001, aquando da construção da ETAR de Sobreiras. (Imagem: Câmara Municipal do Porto)
Tratava-se de uma rede extremamente avançada, que cobria uma área considerável do burgo e que muito poucas cidades, tanto na Europa como nos Estados Unidos, se orgulhavam de ter. Mesmo em Londres, cidade de origem da empresa vencedora do concurso, o sistema adoptado apenas cobria uma área relativamente pequena, servindo essencialmente as Houses of Parliament.

E o que conseguimos ler ali de lado, na tampa? «Campo do Rou.» Esta designação, hoje desconhecida de grande parte dos portuenses, refere-se a uma zona na freguesia de Massarelos. Ainda é possível encontrar na toponímia local a Rua do Campo do Rou, ou então a Travessa do Campo do Rou.

Nos comentários, é possível ver uma imagem do Campo do Rou: um pequeno casario delimitado a leste pelas encostas que descem do Palácio de Cristal e das Macieirinhas, a sul pela Rua da Restauração, e a ocidente pelas traseiras dos edifícios da Rua de D. Pedro V.
Era nesta zona que existia a Fundição do Campo do Rou, cujas ruínas e terrenos podemos encontrar aproximadamente no centro da imagem. A empresa fundada em 1874 foi responsável pelo fabrico das tampas que viriam a equipar a rede projectada pela Hughes and Lancaster.

Curiosamente, e apesar de serem tampas que nos acompanham desde essa altura, resistentes ao tráfego automóvel e ao desgaste do tempo, passam despercebidas aos mais distraídos. São autênticas peças de arte urbana de outros tempos, e seria interessante preservar os exemplares ainda existentes.
Artigo actualizado no dia 4 de Março de 2025.
Fontes
Gazeta dos Caminhos de Ferro. Gazeta dos Caminhos de Ferro, n.º 1261, 1 de Julho de 1940. Porto, 1940. Hemeroteca Digital de Lisboa. https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/GazetaCF/1940/N1261/N1261_master/GazetaCFN1261.pdf
Porto Water City, Águas e Energia do Porto, EM, 2025. https://portowatercity.aguasdoporto.pt/pt/
Saneamento do Porto. Consulta da commissão de saneamento apresentada à ex.ma Câmara Municipal do Porto. Porto: Typographia Occidental, 1897. Biblioteca de Assuntos Portuenses, Casa do Infante. Cota P628.2/CMP e E04/628.2(4). https://bibliotecacasadoinfante.cm-porto.pt/sh_tripeiro/online/bap/b2157.pdf




