Há histórias de inovação que começam em glória e acabam no fracasso. Outras fazem o caminho inverso: de um fiasco comercial nasce uma tecnologia que muda o mundo.
Foi o caso da Radio Corporation of America (RCA) e do seu VideoDisc.
Durante vinte anos, a empresa norte-americana acreditou que tinha encontrado «o próximo grande salto» depois da televisão a cores: discos de vinil capazes de armazenar filmes inteiros. A ideia parecia simples: os sulcos do disco eram lidos por uma agulha extremamente fina que registava variações minúsculas de capacidade eléctrica.
Em teoria, prometia melhor qualidade do que a fita magnética. Na prática, foi um desastre.
O lançamento atrasou quase uma década, os leitores eram excessivamente caros, os discos facilmente danificáveis e, entretanto, o VHS conquistara o mercado com algo imbatível: permitia a gravação de programas em casa.
Em 1984, a RCA desistiu do VideoDisc, depois de perder mais de 580 milhões de dólares.

Mas a história não acabou aí.
Um dos investigadores da RCA, James R. Matey, percebeu que os sensores concebidos para ler o VideoDisc poderiam vir a ser úteis para outras utilizações.
Com peças previamente usadas pelos leitores de VideoDisc, James R. Matey desenvolveu o «scanning capacitance microscope» (SCM), um tipo de microscópio de varrimento cuja sonda é capaz de medir variações de capacidade eléctrica diminutas.
Nos anos 90, investigadores do National Institute of Standards and Technology validaram a tecnologia e, mais do que isso, desenvolveram programas informáticos adequados para a sua utilização.
Pouco depois, e dado que esta tecnologia viria a permitir mapear a dopagem em semicondutores, a indústria passou a utilizar os SCM de forma rotineira para criar circuitos cada vez mais miniaturizados.
O VideoDisc desapareceu quase sem deixar rasto. O microscópio, pelo contrário, ajudou a abrir caminho à microelectrónica moderna.

Tal como esta, diversas outras grandes ideias nasceram numa área completamente diferente da sua aplicação posterior, por se terem revelado um falhanço ou inadequadas.
Recordo-me do Viagra, inicialmente desenvolvido para tratamento da hipertensão e angina de peito; ou então do Post-It, cujo adesivo, descoberto em 1968 durante a investigação de uma «super-cola», se revelou inútil por ser demasiado fraco — até que, em 1974, um dos investigadores responsáveis passou a usar a cola em pequenos papéis amarelo-pálido, que a 3M disponibilizava como blocos de rascunho, para marcar as páginas do seu livro de coro durante os ensaios na igreja.




