Hoje, ao início da manhã, um canto muito característico fazia-se ouvir no parque até onde gosto de ir caminhar. Lá em cima, no alto de um grande choupo, aquelas estridências davam a entender que haveria por ali um qualquer psitacídeo; ou seja, um papagaio, um periquito ou até mesmo uma arara.
Não, seria mais do que um, deu para perceber passados uns minutos. Teriam ninho no choupo?
De repente, um casal — seria um casal, ou simplesmente gostam de andar acompanhados? — voou até uma árvore próxima, onde ficou uns segundos, e acabou por ir para longe de onde eu estava.
No entanto, continuava a agitação no primeiro choupo. Seria mesmo ninho? Eis que, tal como acontecera com o primeiro par, um outro esvoaça dali, indo para outro poiso de onde apenas os ouvia à distância.
Já lá havia visto um casal (?), há cerca de dois anos, e continuei a encontrá-lo, ocasionalmente. Seria, afinal, o mesmo par que eu via consecutivamente, ou seriam vários, pensando eu tratar-se do mesmo?
Bem, pelo menos quatro haverá, e é perfeitamente possível que haja mais. Isso também é um forte indício que poderão não ser de primeira geração, ou seja não terão escapado de cativeiro, e haverá uma comunidade estabelecida, ou a estabelecer-se, com reprodução.
São periquitos-de-colar (Psittacula krameri), disse-me um senhor que por lá passeava com um cão, e me viu de nariz no ar, de volta dos choupos. É provável que fossem. Dos diversos psitacídeos existentes em liberdade no país, são precisamente aqueles, também conhecidos como periquitos-rabijuncos, os que contam com mais observações; e também aqueles cujas descrições correspondem aos que tenho vindo a observar por lá.

Já os tenho encontrado noutros locais da cidade. Nas ruas Arquitecto Marques da Silva e Barbosa du Bocage, naquele quarteirão delimitado pela ruas do Campo Alegre e Mercado do Bom Sucesso, são perfeitamente audíveis, ao final da tarde, as algazarras tropicais destas simpáticas e bonitas aves. Haverá por ali aquilo a que se chama de «dormitórios». Com alguma facilidade, se ficarmos a observar as árvores, podemos vê-los esvoaçar em grupos numerosos.
Também os tenho visto frequentemente no eixo Campo Alegre — Diogo Botelho, mas não os confundamos com os periquitos-monge (Myiopsitta monachus) do Passeio Alegre, na Foz.

O periquito-de-colar tem uma cabeça semelhante a um papagaio, é verde intenso, tem bico laranja e um colar escuro em torno do pescoço; ainda ostenta uma cauda comprida com penas azuladas, que torna o seu voo, apesar de algo desajeitado, mais gracioso, e tem asas com extremidades em tons escuros.
Quando aos periquitos-monge do Passeio Alegre, são um pouco mais pequenos, com caudas e asas mais curtas, de bico amarelado pálido e ainda testa, face e peito acinzentados.
[imagem principal: Birds of Singapore]




