Não é desconhecido que determinados sons, odores ou outros estímulos sensoriais despertam em nós memórias há muito «esquecidas». Talvez até seja mais correcto dizermos, «há muito não visitadas». Há algum tempo, foi o caso deste som que me transportou imediatamente para as noites dos anos 80, e a escuta de emissões em onda curta.
Como o redescobri?, apenas por puro acaso.
Numa aplicação para rádios «online», sintonizei a Deutsche Welle, que naquele momento e por acaso estava sem emissão. No entanto, o som que emitia era somente aquela pequena melodia que me despertara a memória, nada mais.
Tratam-se de «sinais de intervalo», por vezes também chamados de «sinais de sintonização».

Quando era comum haver emissão por ondas curtas, preferencialmente à noite, altura em que a propagação a longa distância era mais favorável, as várias estações de rádio marcavam as frequências com estes sinais.
Tanto serviam para informar as outras estações que aquela frequência estava ou iria ser usada para a emissão dos programas, como para auxiliar os ouvintes na sintonização. A distinção era facilitada através de um sinal de intervalo diferente para cada estação.

Os sinais revelavam-se particularmente úteis, dado que as estações de rádio modificavam as frequências de emissão ao longo das 24 horas do dia. Tal devia-se à alteração das condições de ionização das altas camadas da atmosfera.
A ionosfera, localizada entre 60 km e 1000 km de altitude, é composta por várias camadas que, por acção da radiação solar mais energética, como os raios-X, alteram os seus estados de ionização. Desse modo, as condições para a reflectividade ou absorção de determinados comprimentos de onda são alterados ao longo do ciclo diurno.
Dito de outra forma, a ionosfera, sob certas condições, comporta-se como um espelho para as ondas curtas. O fenómeno permite assim vencer a curvatura da Terra, com reflexões solo-ionosfera sucessivas, e o alcance de regiões longínquas e até mesmo de outros continentes.

As estações de rádio também alteravam as frequências sazonalmente com a estação do ano, ou ajustadas com os ciclos de actividade solar, e ainda conforme as geografias para onde apontavam a emissão. Também estas adptações procuravam optimizar as condições de propagação a longa distância, ao tirar partido da reflectividade ionosférica às ondas curtas.
Para saber mais
Notícia acerca do encerramento do centro emissor Deutsche Welle de Sines




