Biblioteconomia I: Como funciona a CDU — Classificação Decimal Universal

20 de Fevereiro de 2026 | Curiosidades

Graças a um amigo bibliotecário, a biblioteconomia tornou-se num dos meus passatempos há um par de anos. É um termo enorme, uma «palavra cara», como se costuma dizer, e confesso que só o fiquei a conhecer há pouco tempo. Mas o que será a biblioteconomia?

No Verão de 2024, dei por mim a percorrer as estantes de uma biblioteca para tentar encontrar uma lógica no processo de catalogação. Foi por puro acaso. Tinha-me levantado do lugar para ir procurar um livro de que necessitava naquele momento e acabei encantado com as categorias, números de cota e afins.

Ora, o bibliotecário viu-me ali durante um tempo considerável, meio absorto, a examinar lombada a lombada enquanto tentava comparar os números de cota entre as diversas estantes, e lá percebeu o que se passava.

Com a paciência do meu amigo e a sua disposição para me aturar, fiquei a conhecer um sistema de classificação chamado CDU — Classificação Decimal Universal, que grande parte das bibliotecas usa, principalmente na Europa. Este sistema é mantido pelo UDC Consortium, uma organização sem fins lucrativos localizada em Haia, nos Países Baixos.

A partir daí, foi só estudar o assunto.

E como funciona a CDU?

Existem, neste sistema de classificação, diversas classes principais:

0 Ciência e Conhecimento; Organização; Informática; Ciência da Informação; Documentação; Biblioteconomia; Instituições;

1 Filosofia; Psicologia;

2 Religião; Teologia;

3 Ciências Sociais;

4 (vago, não atribuído);

5 Matemática; Ciências Naturais;

6 Ciências Aplicadas; Medicina; Tecnologia;

7 Artes; Entretenimento; Desporto;

8 Linguística; Literatura;

9 Geografia; História.

Depois, a classificação pode ser mais detalhada.

Por exemplo, vamos à classe 5 para classificarmos convenientemente uma obra sobre «Césio como produto da cisão nuclear».

5 Matemática; Ciências Naturais;

53 Física;

539 Natureza Física da Matéria;

539.1 Física Nuclear; Física Atómica; Física Molecular;

539.17 Reacções Nucleares; Cisão; Fusão; Reacções em cadeia, etc.;

539.173 Cisão;

539.173.8 Produtos da Cisão.

Agora, podemos especificar o Césio:

5 Matemática; Ciências Naturais;

54 Química; Cristalografia; Mineralogia;

546 Química Inorgânica;

546.3 Metais em geral;

546.36 Césio Cs.

Portanto, ficamos com:

539.173.8:546.36

Podemos refinar e explicar que é um manual universitário:

(0) Auxiliares comuns de forma;

(07) Documentos destinados à instrução, ensino e formação;

(075) Textos didácticos; Livros escolares; Textos para estudantes;

(075.8) Texto para o ensino universitário; Educação superior.

Fica, agora, mais completo:

539.173.8:546.36(075.8)

E ainda podemos incluir o idioma. Suponhamos que está em Inglês:

=1 Línguas Indo-Europeias da Europa;

=11 Línguas Germânicas;

=111 Inglês.

Agora, fica:

539.173.8:546.36(075.8)=111

Podemos interpretar como: «manual universitário em inglês acerca do césio como produto da cisão nuclear».

Não vamos complicar muito, pois geralmente não se avança mais do que isto. Poderíamos também definir o suporte, a data, o local de edição, etc., mas estaríamos a tornar demasiado complexa uma classificação destinada a uma biblioteca ordinária.

Quanto ao número de cota (recordam-se? Falei dele no início da publicação), decidi, como padrão, usar a parte mais genérica da CDU, com inclusão das três primeiras letras do apelido do autor.

Imaginemos que temos na nossa biblioteca dois livros — edições ou títulos diferentes — de John Smith sobre «cisão nuclear». Os livros teriam assim as cotas 539.173 Smi.1 e 539.173 Smi.2.

Esta é apenas a convenção que criei, e cada biblioteca adopta uma configuração para o número de cota que considere mais adequada. No meu caso, ficar-me-ia por «cisão nuclear» e não iria ocupar uma prateleira com «produtos de cisão», muito menos com «césio como produto de cisão».

Espero que tenha aguçado a curiosidade e até estimulado quem queira catalogar os seus livros. Aos mais interessados, aconselho procurar bibliografia sobre este sistema de classificação; existe muita informação aberta e disponível.

Em próximas publicações, falarei do UNIMARC (criado e mantido pela Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias, igualmente com sede em Haia) e de como este código padronizado pode ser útil para transferir automaticamente dados entre bibliotecas. Irei também dar pequenas dicas, aprofundar um pouco mais a biblioteconomia amadora e mostrar algumas ferramentas informáticas que tenho vindo a desenvolver para este passatempo.