Estou neste momento sentado à secretária, em casa, a 8 graus, 32 minutos e 58.05 segundos de uma colina em Londres. É essa colina que define, para efeitos práticos, onde começa o meu dia. Mas podia não ser assim.
O problema do ponto zero
Antes de 1884, não existia qualquer consenso internacional sobre onde começava a longitude. Cada nação navegava com o seu próprio ponto zero. Os ingleses usavam Greenwich desde 1675, quando Carlos II mandou construir o Observatório Real com o propósito explícito de resolver o problema da longitude no mar. Os franceses preferiam o meridiano de Paris, estabelecido em 1667, aliás, mais antigo do que o inglês. Os americanos tinham Washington. E os portugueses, conforme a tradição náutica do momento, usavam ora o Pico das Flores, nos Açores, ora o Cabo de São Vicente.

Esta multiplicidade não era apenas um inconveniente académico. Era um problema operacional real: um navio que saísse de Lisboa com cartas náuticas portuguesas e encontrasse em alto mar um barco inglês com cartas britânicas estava, em sentido estrito, a trabalhar com dois universos cartográficos diferentes. A conversão era possível, mas acrescentava um vector de erro em circunstâncias que já eram perigosas por natureza.
Washington, Outubro de 1884
A Conferência Internacional do Meridiano reuniu-se a 1 de Outubro de 1884, no Salão Diplomático do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Estiveram representadas vinte e cinco nações. O objectivo era chegar a acordo sobre três pontos: um meridiano único de referência para a longitude, um dia universal, e uma hora universal.

A proposta de Greenwich saiu vencedora por vinte e dois votos a favor, um contra (São Domingos, actual República Dominicana) e duas abstenções reveladoras: a França e o Brasil. A França recusou-se a votar a favor de Greenwich não por razões técnicas, mas por razões de prestígio nacional. Aceitar o meridiano inglês era, simbolicamente, aceitar a supremacia britânica nos mares. Os franceses só ratificariam oficialmente Greenwich em 1911, e mesmo assim com a formulação diplomática de que adoptavam o «tempo médio de Paris diminuído de 9 minutos e 21 segundos». O que era, claro, exactamente o mesmo que Greenwich.

Porque Greenwich e não outro lugar
O argumento decisivo foi estatístico e económico. O delegado americano apresentou dados que mostravam que cerca de 72% da tonelagem do comércio marítimo mundial (ou 65% dos navios) já utilizava cartas náuticas baseadas em Greenwich. Mudar para outro meridiano implicaria recartografar a maior parte dos oceanos: um custo e um esforço que nenhuma nação estava disposta a suportar.
Greenwich ganhou não porque fosse o melhor local em termos astronómicos ou geográficos, mas porque já era o mais usado. Uma vitória do efeito de rede sobre a lógica pura. Do ponto de vista estritamente geodésico, o meridiano de Greenwich não tem nada de especial: passa por uma colina em Londres, atravessa a França, a Espanha, a Argélia, o Mali, o Burkina Faso, o Togo, o Gana, e sai para o Atlântico Sul. Não coincide com qualquer fronteira natural, acidente geográfico relevante, ou ponto matematicamente privilegiado. É, como todos os meridianos, uma construção humana inteiramente arbitrária.
Portugal e a tradição cartográfica que chegou tarde
Portugal tinha razões históricas de peso para ter um papel central nesta decisão. A cartografia portuguesa dos séculos XV e XVI era o estado da arte mundial. O próprio Tratado de Tordesilhas, de 1494, havia dividido o mundo entre Portugal e Castela com base num meridiano a 370 léguas a oeste de Cabo Verde. O que prova que a ideia de um meridiano de referência como instrumento político e legal não era nova, e que Portugal estivera na sua vanguarda.

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O Observatório Astronómico de Lisboa, cuja construção se iniciou em 1861 na Tapada da Ajuda por determinação de D. Pedro V (concluído em 1867), era uma instituição respeitada. Mas em 1884 Portugal era já uma potência de segunda ordem, e a sua representação em Washington não teve peso suficiente para influenciar o resultado. Nenhuma das grandes potências navais emergentes tinha qualquer interesse em ceder a iniciativa a Lisboa.
É tentador especular: se a conferência tivesse ocorrido dois séculos antes, no auge do poder marítimo português, o meridiano poderia ter passado pelo Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa continental. Uma escolha com alguma elegância geográfica, que teria o mérito de colocar toda a Europa Continental a leste de zero graus. Mas a história não funciona por elegância; funciona por poder.
O tempo como consequência da longitude
A decisão sobre o meridiano arrastou consigo outra, menos discutida mas igualmente profunda: a definição do tempo universal. Se a longitude começa em Greenwich, o dia também começa em Greenwich. O TMG (Tempo Médio de Greenwich) tornou-se a referência global, e com ele toda a arquitectura dos fusos horários que hoje estrutura a nossa percepção do tempo em escala planetária.
Há aqui uma ironia que merece atenção: a linha de mudança de data. O antípoda de Greenwich para a data, a 180 graus de longitude, deveria, por lógica geométrica, ser a continuação no oceano Pacífico para lá dos pólos. Mas não é. É uma linha irregular, com desvios deliberados para manter países e arquipélagos do mesmo lado da meia-noite. As ilhas Fiji, Tonga, Samoa, Kiribati, todas sofreram ajustes políticos ao que deveria ser uma consequência matemática de uma decisão tomada em Washington em 1884.

A pequena mentira no chão de Greenwich
Existe um pormenor que poucos visitantes do Observatório de Greenwich conhecem: a linha que marca o «meridiano» histórico não coincide exactamente com o meridiano de referência actual. O sistema GPS, baseado no Quadro de Referência Terrestre Internacional (ITRF), coloca o meridiano de longitude zero a cerca de 102 metros a leste da linha histórica de Airy, o instrumento astronómico que serviu de base à definição original.

A diferença resulta de uma subtileza técnica: o meridiano de Airy era definido pela vertical astronómica no local, que é ligeiramente diferente da normal geométrica ao elipsóide de referência usado pelos sistemas modernos. A deflexão da vertical, causada pelas irregularidades da distribuição de massa no interior da Terra, introduz um desvio pequeno mas mensurável. O meridiano de Greenwich original era um meridiano astronómico; o de referência actual é um meridiano geodésico. São coisas diferentes.
Quem hoje tira uma fotografia com o telemóvel em cima da linha de Greenwich e verifica as coordenadas GPS fica surpreendido: o ecrã mostra 0° 0' 5" W, ou seja, ligeiramente a oeste de zero. A linha histórica é quase um monumento. É importante, simbólica, mas tecnicamente ultrapassada.
Quem hoje tira uma fotografia com o telemóvel em cima da linha verde de Greenwich e verifica as coordenadas GPS fica surpreendido.
Surpreenda-se: abra aqui o Google Maps junto à marcação do Meridiano, coloque o marcador exactamente sobre a linha assinalada no solo, e verifique qual a é a longitude do local, pressionando o botão direito do rato.
Uma convenção arbitrária com consequências universais
A Conferência de Washington de 1884 é um exemplo perfeito de como decisões técnicas são, na realidade, decisões políticas disfarçadas de técnica. A escolha de Greenwich não foi feita porque Greenwich era o lugar certo; foi feita porque a Grã-Bretanha era, naquele momento, a maior potência naval e comercial do mundo, e porque o efeito de rede criado pelas suas cartas náuticas tornava qualquer alternativa demasiado dispendiosa.
O meridiano de Greenwich é uma convenção. Como todas as convenções, é arbitrário na sua origem e necessário nas suas consequências. Podia ter sido o Cabo da Roca. Podia ter sido Paris. Podia ter sido qualquer ponto no oceano Pacífico, longe de qualquer terra habitada. Mas foi Greenwich, e agora é para sempre Greenwich, ou pelo menos até que uma qualquer nova ordem mundial decida que chegou a altura de recartografar o planeta.
Fontes
Protocols of the Proceedings of the International Meridian Conference, Washington, October 1884. Gibson Bros., 1884. https://www.ucolick.org/~sla/leapsecs/imc1884.pdf
Royal Museums Greenwich — History of the Greenwich Meridian: https://www.rmg.co.uk/stories/space-astronomy/history-royal-observatory
Malys, S., Seago, J.H., Pavlis, N.K. et al. Why the Greenwich meridian moved. J Geod 89, 1263–1272 (2015). https://doi.org/10.1007/s00190-015-0844-y
Observatório Astronómico de Lisboa — História: https://oal.ul.pt/inicio/historia-recente-do-oal/a-fundacao/historia-do-oal/
The Adoption of a Prime Meridian — The Greenwich Meridian (thegreenwichmeridian.org): https://www.royalobservatorygreenwich.org/articles.php?article=1240





