Por vezes, assistimos a episódios bem reveladores da «natureza humana», seja lá o que for esta entidade abstracta que nos distingue — ou não, curiosamente — das restantes espécies.
Comecemos pelo contraditório, que talvez nos seja mais familiar.
Todos ouvimos, e alguns de nós até os terão proferido, comentários que desejem ou exaltem a morte de alguém. Muito frequentemente, são desabafos em conversas de café dirigidos a políticos, a ditadores, a dirigentes desportivos, ou até ao vizinho que decide aparar a relva enquanto tentamos descansar. Desde há alguns anos, tais conversas saltaram das mesas de café para as caixas de comentários das redes sociais, e aqui não há grande novidade.
Não quer dizer, na maioria das vezes, que quem solte tais comentários deseje mesmo a morte de tal pessoa, muito menos que a matasse. Talvez, se tal acto ocorresse pelas mãos de outrem, até pudesse sentir um certo alívio ou regozijo, conforme o contexto, mas o desejo de matar «de facto» raramente surge, excepto em situações limite de auto-defesa ou de protecção de quem nos é próximo ou por quem nutrimos empatia.
Agora, vamos ao ponto onde eu iria começar o texto antes de ter decidido revirar a ideia original.
Há uns dois ou três anos, apanhei um comboio urbano já tarde, talvez pelas onze e meia da noite. Independentemente da hora, os comboios urbanos nos percursos mais curtos costumam andar cheios. Não era excepção naquela noite, apesar de haver poucos passageiros em pé e um ou outro assento livre.
A maior parte das pessoas iria a olhar para o telemóvel, enquanto lia as notícias ou cuscava as redes sociais, outras simplesmente estariam quietas de cansaço, e outras aproveitariam a pequena viagem de dez ou quinze minutos para pôr a conversa em dia. O normal.
Subitamente, sobressaltou-nos um longo apito da buzina seguido de uma frenagem brusca. Um comboio não é propriamente um veículo ligeiro, e ainda percorreu uma distância considerável antes de ficar totalmente imobilizado.
Sem que ninguém nos dissesse ou sequer tivéssemos trocado comentários, naquele exacto momento percebemos o que acontecera mesmo por baixo de nós. Um silêncio absoluto envolveu a composição que assim permaneceu durante as duas horas que lá estivemos parados.
Após cerca de trinta minutos, o movimento dos bombeiros e das forças de segurança que iam instalando holofotes ao longo da berma, apontados para o espaço entre o comboio e a linha, eliminava qualquer dúvida que ainda houvesse. As margens exteriores eram exíguas, configurando um quase-túnel de altas paredes de betão encimado por viadutos, e as equipas passavam mesmo por baixo das janelas.
Chegou finalmente uma nova composição que parou alinhada com aquela em que estávamos. Os funcionários instalaram uma pequena ponte entre os comboios, enquanto dois bombeiros seguravam um grande pano que servia de biombo.
Atravessámos a ponte, um a um, sem sequer perguntar o que se passara. Tal como os passageiros, todos os restantes permaneceram em silêncio, encalhados algures entre a perturbação e o respeito.
Em circunstâncias «normais», uma paragem superior a cinco minutos teria causado burburinho e reclamações. Se se prolongasse, talvez até aparecessem os tais comentários de que falava nos primeiros parágrafos. Naquela noite, o inesperado encontro com o destino alheio, de alguém que provavelmente ninguém naquele comboio conhecia, remeteu-nos a um silêncio revelador da relação connosco próprios e com os outros.
Dá que pensar.
[imagem principal: Rui Silva, Julho de 2025]





