A Hughes and Lancaster no Porto

1 de Outubro de 2021 | Curiosidades

Este artigo foi actualizado no dia 4 de Março de 2025.

Já aqui falei destas tampas que são autênticas preciosidades. Apesar de ainda podermos encontrar algumas pelas ruas mais antigas da cidade, são cada vez mais raras.

Qual é a história destas tampas?

No último quartel do século XIX, a cidade do Porto atravessava um notável período de desenvolvimento, o que tornou insuficiente a já obsoleta — e em muitos locais inexistente — rede de saneamento para os esgotos domésticos.

A Câmara Municipal do Porto, já envolvida nas obras de expansão e criação de novas centralidades, aproveitou o ímpeto para lançar em 1897 um concurso internacional tendo em vista a modernização da rede. Essa decisão não foi alheia à publicação por Ricardo Jorge, um ano antes, de um estudo sobre o saneamento na cidade.

Tampa secundária do sistema de esgotos, fotografada no dia 28 de Fevereiro de 2026. (Rui Silva)

A firma Hughes and Lancaster, de Londres, acabaria por ser a seleccionada, após correcções de uma primeira proposta rejeitada por preço excessivo e inadequação técnica ante o exigido.

A camara regeita a proposta feita em concurso pela casa Hughes & Lancaster: Primeiro, por não lhe convir a proposta financeira; Segundo, por ser excessivo, nos termos da consulta da commissão technica, o preço das obras a executar; Terceiro, por carecer o projecto de saneamento de alterações e addições, que a mesma commissão reputa indispensaveis. Reconhecendo, porém, que o systema proposto é o unico acceitavel para o saneamento da cidade do Porto, convida a mesma casa Hughes & Lancaster a introduzir no seu projecto, dentro do praso de seis mezes para a apresentação do projecto definitivo, as modificações indicadas pela commissão technica e outras que por ventura venham a ser-lhe aconselhadas, reduzindo ao mesmo tempo o preço do seu orçamento.

Feitas as modificações à proposta em termos aceitaveis, a camara cuidará livremente de obter os meios indispensaveis para a realisação da obra.

-- In Saneamento do Porto. Consulta da commissão de saneamento apresentada à ex.ma Câmara Municipal do Porto.

Após a aceitação e vários contratempos, a cidade passou a contar com um sistema que bombeava as águas residuais através de ar comprimido. A operação em pleno de todo o sistema proposto, apenas foi atingido em 1927, ficando em funcionamento com algumas adaptações até 2001. Desta forma, passou a ser possível vencer declives acentuados, tornando a gravidade desnecessária.

Para tal, foi construída a Estação de Sobreiras, em Lordelo do Ouro, que produzia a pressão através de um sistema misto de compressores eléctricos e a vapor. Os efluentes eram encaminhados até esta central, onde ficavam armazenados para serem expulsos durante a maré vazante.


A Central de Ar Comprimido de Sobreiras, inaugurada em 1904, foi o elemento central da primeira rede de saneamento do Porto. Movida a vapor, produzia ar comprimido que alimentava os ejetores, permitindo elevar e expulsar os esgotos para o mar. Foi desativada em 2001, aquando da construção da ETAR de Sobreiras. (Imagem: Câmara Municipal do Porto)

Tratava-se de uma rede extremamente avançada, que cobria uma área considerável do burgo e que muito poucas cidades, tanto na Europa como nos Estados Unidos, se orgulhavam de ter. Mesmo em Londres, cidade de origem da empresa vencedora do concurso, o sistema adoptado apenas cobria uma área relativamente pequena, servindo essencialmente as Houses of Parliament.

Tampa Hughes and Lancaster
Esta tampa foi fotografada nas Escadas do Barredo, no Porto, no dia 28 de Fevereiro de 2026. Repare-se na referência a «Campo do Rou», à esquerda. (Rui Silva)

E o que conseguimos ler ali de lado, na tampa? «Campo do Rou.» Esta designação, hoje desconhecida de grande parte dos portuenses, refere-se a uma zona na freguesia de Massarelos. Ainda é possível encontrar na toponímia local a Rua do Campo do Rou, ou então a Travessa do Campo do Rou.

Campo do Rou, Massarelos, Porto. Era nesta zona que existia a Fundição do Campo do Rou, cujas ruínas e terrenos podemos encontrar aproximadamente no centro da imagem. (Google Earth)

Nos comentários, é possível ver uma imagem do Campo do Rou: um pequeno casario delimitado a leste pelas encostas que descem do Palácio de Cristal e das Macieirinhas, a sul pela Rua da Restauração, e a ocidente pelas traseiras dos edifícios da Rua de D. Pedro V.

Era nesta zona que existia a Fundição do Campo do Rou, cujas ruínas e terrenos podemos encontrar aproximadamente no centro da imagem. A empresa fundada em 1874 foi responsável pelo fabrico das tampas que viriam a equipar a rede projectada pela Hughes and Lancaster.

Anúncio da Fundição do Campo do Rou, na Gazeta dos Caminhos de Ferro n.º 1261, de 1 de Julho de 1940.

Curiosamente, e apesar de serem tampas que nos acompanham desde essa altura, resistentes ao tráfego automóvel e ao desgaste do tempo, passam despercebidas aos mais distraídos. São autênticas peças de arte urbana de outros tempos, e seria interessante preservar os exemplares ainda existentes.

Artigo actualizado no dia 4 de Março de 2025.

Fontes

Gazeta dos Caminhos de Ferro. Gazeta dos Caminhos de Ferro, n.º 1261, 1 de Julho de 1940. Porto, 1940. Hemeroteca Digital de Lisboa. https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/GazetaCF/1940/N1261/N1261_master/GazetaCFN1261.pdf

Porto Water City, Águas e Energia do Porto, EM, 2025. https://portowatercity.aguasdoporto.pt/pt/

Saneamento do Porto. Consulta da commissão de saneamento apresentada à ex.ma Câmara Municipal do Porto. Porto: Typographia Occidental, 1897. Biblioteca de Assuntos Portuenses, Casa do Infante. Cota P628.2/CMP e E04/628.2(4). https://bibliotecacasadoinfante.cm-porto.pt/sh_tripeiro/online/bap/b2157.pdf