À uma da manhã de 27 de Junho, uma autêntica instituição britânica de há quase um século calou-se. A BBC encerrou definitivamente a Radio 4 em onda longa, na frequência de 198 kHz, pondo fim a uma era.
Por trás daquele sinal estava uma rede de três estações, a maior das quais em Droitwich, ao serviço desde 1934, a debitar meio milhão de watts através de válvulas tão potentes que fervem água nas suas camisas de arrefecimento.
A onda longa contorna a curvatura da Terra, algo que as frequências altas não fazem, e bastava por isso um único sinal para cobrir todo o Reino Unido e alcançar ainda a Irlanda e boa parte da Europa.
Aquele sinal fazia mais do que transportar música e o famoso boletim marítimo. A sua frequência era fixada por um padrão atómico de rubídio, o que o tornava também um relógio de referência para calibração em todo o país.
Além disso, codificado na transmissão, viajava o Radio Teleswitch: um sistema que, desde os anos 1980, comandava à distância os contadores de electricidade de milhares de casas, permitindo, por exemplo, ligar o aquecimento nas horas de vazio para aproveitar as tarifas mais baratas.
O fim chegou por duas vias. Os ouvintes tinham minguado para uma pequena fracção, à medida que migravam para o digital; e, decisivo, já não se fabricam as válvulas de potência do transmissor. Sem material sobressalente nem público, a BBC concluiu que não havia como manter viva a transmissão por onda longa.
Há quem recorde a antiga lenda, provavelmente apócrifa mas ainda recorrente nos comentários do dia-a-dia, de que os comandantes dos submarinos nucleares britânicos escutavam este sinal para saber, pelo seu eventual silêncio, se a guerra tinha começado.
Imagem principal: transmissor de Droitwich. (BBC)
Fontes
BBC; Radio Society of Great Britain; transmissor de Droitwich.



