Numa dessas noites, como noutras, dei um pequeno passeio a pé. As pernas caminhavam sozinhas, sem pensar, conhecem bem aquelas ruas desde há vários anos.
O ar estava fresco embora estival, com algum alívio que o Douro permitiu serpentear desde o mar. Para variar, e talvez pela primeira vez naquela semana, as cigarras estavam já silenciosas à meia-noite; o que era um bom sinal, depois da fornalha diurna.
Após ter percorrido a única rua da aldeia, com uma paragem ou outra para apreciar a noite, atravessei a linha até à estação. Estava fechada, o que não impedia o livre acesso à plataforma.
Claro que não estava à espera do comboio — há cinco por dia em cada sentido, quando as supressões não dão o habitual ar da sua triste graça —, mas lá me sentei num banco, daqueles em ferro forjado e ripas de madeira envernizada, como os dos jardins.
A brisa não disfarçava o odor quente a creosoto, tostado até ao pôr-do-sol com o termostato no máximo, que teimava em perfumar o ar da estação.
Se não havia cigarras, havia os grilos… e música que se lhes atrevia a sobrepor. Ora esta! De onde vinha?
Ali estava! Um carro bem apessoado e cromado de matrícula suíça, mais-do-que-merecido orgulho para um filho da terra, estava parado entre a estação e o rio. E exalava música popular!
Desconheço se a música era recente, mas tanto poderia vir de uma cassete pirata dos anos 80 como de um CD comprado num café português de Genebra.
O estilo não variou ao longo dos anos, mantém-se fiel, com as letras que evocam saudades de Portugal, com os teclados à Strawberry Fields, com o baixo
pom-pom-pom ♫♩
pom-pom-pom ♫♩
[sobe meio tom] ♯
pom-pom-pom ♫♩
pom-pom-pom ♫♩
[desce meio tom] ♭
bis.
Até para o ano, bom trabalho, venham visitar-nos no Natal, pareciam dizer os abraços simples e genuínos daquele pequeno grupo. Gente boa.
Até para o ano!




