Quando caminhamos pelos centros históricos de várias cidades e vilas portuguesas, é frequente darmos de caras com uma placa a indicar «Rua Direita». No entanto, se olharmos em frente, quase invariavelmente a rua é sinuosa e adaptada ao terreno. Em 1955, o historiador norte-americano Robert Chester Smith chegava mesmo a ridicularizar o facto de estas nossas ruas, «ironicamente chamadas direitas», serem «tortas e cheias de altibaixos», usando isso para defender que os portugueses não tinham sabido planear cidades regulares no Brasil.
Já em 1917, ao estudar Chaves, José Leite de Vasconcellos tinha reparado nesta aparente contradição, explicando que o adjectivo não se referia à geometria da rua, mas ao facto de ligar directamente um extremo ao outro da área urbana. Mais tarde, na década de 1960, Orlando Ribeiro aprofundou esta ideia, com especial atenção à Rua Direita de Viseu. Desta forma, ajudou a consolidar a visão de que a «Rua Direita» era o centro comercial e o eixo principal que unia os pontos vitais da povoação.
Quando vamos aos arquivos, porém, o caso muda de figura, como mostra Sandra M. G. Pinto num artigo publicado na Revista de Morfologia Urbana em 2014.
Nos documentos antigos, a noção de direcção aparece de forma muito clara, como num registo de Santarém, de 1294, onde se refere a «uia publica que uenit directe de porta de Alpram et uadit ad portam de Alcaçoua» (a via pública que vem directa da porta de Alporão e vai até à porta da Alcáçova). É fácil perceber como a expressão «rua que vai directa» acabou reduzida simplesmente para «rua direita». Aliás, também em Santarém, artérias que no século XIII eram conhecidas apenas como ruas «da Ramada», «dos Mercadores» ou «do Açougue Velho» passaram, nos séculos XIV e XV, a surgir na documentação como «Ruas Direitas de…».
Foi sobretudo a partir da segunda metade do século XIV que os qualificativos «direita» e «travessa» começaram a abundar nos textos escritos, muitas vezes lado a lado. No Tombo do Cabido de Braga (1369-1380), por exemplo, surge uma «Rua Travessa que vai do Postigo até à porta da Igreja de Santiago da Cividade primeiramente da mão direita como vão para a dita Igreja». Tanto «direita» como «travessa» funcionavam apenas com indicações práticas de itinerário: a «Rua Direita» fazia um percurso directo entre dois pontos de referência; a «Rua Travessa» servia de atravessamento entre dois espaços de circulação (acabando o adjectivo, em muitos casos, por se transformar no substantivo «Travessa» que hoje usamos).
Ou seja, nem todas as «Ruas Direitas» foram o grande eixo comercial ou o elemento estruturante das nossas vilas e cidades. Algumas tiveram de facto esse papel, mas outras eram somente o acesso mais curto ou mais rápido entre dois pontos, sem qualquer relevância comercial. Esta original toponímia, na Idade Média, servia essencialmente para orientar quem passava.
Para quem tiver curiosidade sobre o tema, aconselho a leitura do artigo de Sandra M. G. Pinto, «A ‘rua direita’ portuguesa: elemento estruturador ou designação toponímica?», Revista de Morfologia Urbana, vol. 2, n.º 1, 2014, pp. 42-43.
Imagem principal: Rua Direita, Chaves, Fernando DC Ribeiro, no blog https://chaves.blogs.sapo.pt





